Cartas a Ofélia

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domingo, 10 de julho de 2011

Processo criativo - O Quase

O que tira o seu chão? O que te arrasa?
Estas foram as perguntas que fiz aos meus quatro amigos em classe quando nos foi proposto que escolhêssemos, cada, um tema para criar um solo de teatro-dança.
“Saudade, perda, ausência, algo relacionado ao meu filho...” foram as respostas. Até eu perguntar para a Vancllea e ela me questionou o porquê da pergunta. Eu disse que estava tentando escolher um tema para o meu solo. Então ela me devolveu “O que TE arrasa?” e a resposta foi quase instantânea “Acho que... a banalidade do amor. A banalização, na verdade”, “Então fale sobre isso.”
Talvez eu estivesse com medo de falar sobre isso. Havia saído recentemente de algo que, para mim, quase tinha dado certo e acho que não queria pensar muito sobre o assunto, era muito doloroso ainda e eu não podia deixar de considerar, como sempre, que a culpa foi minha (por mais que depois viesse a compreender que não foi). Mas percebi que não iria conseguir falar de outra coisa se não daquilo, que era a minha necessidade, que eu só conseguia pensar naquilo e tentar entender porque foi quase e não apenas foi e ainda é. Foi quando me surgiu O Quase como tema, abrangendo não apenas a mais recente, mas todas as minhas experiências amorosas, pois foram, sem exceção, sempre malsucedidas.
                Vancllea nos pediu que contássemos nossas histórias, o porquê de termos escolhido aqueles temas especificamente. O exercício seria o seguinte: enquanto um conta os outros observam os gestos que esta pessoa faz para poder reproduzir para que ela veja depois.  Ao contar, meus gestos foram muito focados nas mãos. Daí foi criado o início do solo: de mãos atadas. Dessas situações beckettianas de que vivemos tentando nos libertar, mas não somos capazes, porque não depende de nós ou porque nos acomodamos ali ou esperamos ainda conseguir uma mudança na situação para que ela flua como desejamos ou realizamos um auto-boicote, talvez porque nos sentiríamos vazios se não estivéssemos nessa condição, ou...
ESTRAGON
(de boca cheia, distraído) Não estamos amarrados?

VLADIMIR
Não entendi uma palavra.

ESTRAGON
(mastiga, engole) Perguntei se estamos amarrados.

VLADIMIR
Amarrados?

ESTRAGON
A-mar-ra-dos.

VLADIMIR
Amarrados, como?

ESTRAGON
Pés e mãos.

VLADIMIR
Mas a quem? Por quem?

ESTRAGON
Ao seu homem.

VLADIMIR
A Godot? Amarrados a Godot? Que idéia! De maneira nenhuma! (Pausa) Não... por ora.

                Juntamente com o resultado desse exercício surgiu, por acaso, o pedido de desculpas na cena. Apenas por um leve momento de desconcentração ao começar a apresentar minha primeira idéia para o solo:
Mãos atadas, mãos atadas, mãos atadas... opa!
                 – Ai, desculpa! Posso recomeçar?
                – Usa isso! – disse a Van – Faz sentido na concepção do “Quase”.
Para o pedido de desculpas dar certo em cena é preciso uma desconstrução do corpo criado, o que, creio que pelo motivo dessa ação se encontrar no começo da obra (que é um momento tenso e delicado para mim, como artista, perante o público), eu não consigo executar da forma como gostaria muitas vezes. É uma das minhas dificuldades em relação a O Quase e um dos pontos em que necessito de mais concentração, o que é paradoxal se for levado em consideração que surgiu exatamente de um momento de quebra da concentração.
Como desatar as mãos e partir para outra ação foi uma das questões mais facilmente resolvíveis. A solução é a mesma tanto para o momento das mãos presas quanto para o dos dedos dos pés colados no chão. Soltam     -       se, simplesmente. Mas não se soltam para alcançar o que é almejado, não se soltam da maneira desejada, apenas soltam          -             se. São daquelas situações por que passamos e sabemos que ninguém morre por algo assim, por mais que enquanto estamos inseridas nelas sentimo-las como se pudessem, quase com absoluta certeza, nos causar a morte. Por cansaço, talvez, ou raiva ou insegurança ou desidratação ou medo ou...
Enfim, acho que por isso me identifico tanto com o título do solo da Vancllea: Pequenas Mortes. Pois é algo sobre o qual eu já havia pensado (e apelidado de mortes simbólicas, expressão retirada de aulas de filosofia do ensino médio), algo que está bem próximo de mim, não por um lado apenas, mas me c e r c a n d o. Aqui é cabível até uma retificação: tenho a sensação de que posso mergulhar nisso, como se mergulhasse n’água, fazendo parte,                                                                                                                                fluindo. E é de uma parte específica desse enorme algo que eu quero falar e que, creio, haverá de ser entendido por se tratar de um lugar comum a nós. Não com o mesmo formato, com a mesma textura, o mesmo aroma, as mesmas cores, a mesma atmosfera... mas isso não importa, porque eu posso sentir a sua versão desse lugar e identificá-lo, reconhecê-lo como tão meu quanto seu. A partir disso eu passei a experimentar diversas maneiras de explorar essa forma (pelo menos umas sete) e repeti-la, la-repeti, repela-ti, ti-larepe, lati-pere...  mas descartei a maioria, por falta de tempo para trabalhá-las como gostaria. “Menos é mais.”
Em relação à minha situação pessoal, eu, obviamente, não me sinto hoje da mesma forma como me sentia no início do processo. Nem esperava me sentir. Como já disse, ninguém morre por algo assim. Creio que no começo do terceiro mês de trabalho meus sentimentos já haviam mudado completamente. Eu não estava mais tão imersa emocionalmente no tema a ponto de isso me atrapalhar na criação. Ocorreu-me algo interessante, então: tornou-se muito mais fácil pensar e montar o solo artisticamente com o passar do tempo, por estar superando a coisa toda. Percebi que a partir daí a O Quase cresceu muito, pois consegui entrar em contato com memórias pessoais que, antes, eram dolorosas demais para serem acessadas. Foi quando eu consegui inserir no solo a Valsa Sentimental de Tchaikovsky e a figura do Cavaleiro pela metonímia do som do trote do cavalo.
A música, juntamente com a dança, é um dos meus poucos refúgios. A Valsa Sentimental, especificamente, foi para onde muitas vezes eu                         c o r r i quando algo deu errado (ou quase deu certo), é um lugar muito meu. Posso dizer até que, após tomar consciência disso, seria desrespeitoso comigo mesma não me apropriar dela para esta composição, mesmo que não fosse de uma maneira tão explícita.
A imagem dO Cavaleiro veio-me na memória no instante em que eu mais precisava, pois estava em busca do elemento que faria a obra deixar de ser uma porção de fragmentos, estava em busca do l-i-a-m-e. Sua origem possui uma história não tão longa, mas que não acho conveniente expor aqui, porque pode ser cansativa. Basicamente, poderia dizer, surgiu como material por meio da seguinte carta, entregue a mim quando foi decretado que seria quase, mas não ainda:

Cavaleiro torto
Tal Quixote
Armadura de retalhos
E a espada rota em punho
Em busca da
inexistente honra

Quão fraco e tolo
Pode ser um homem
Lutando em vão contra
Moinhos de vento que
Ele próprio criou?

Nesta inútil luta
Perde tanto corpo
Quanto alma
Embriagado pelos
Devaneios de sua mente

E mesmo no fim
Perdido em pesadelos
Enfrenta dragões oníricos
Com tal fúria
Que um retrato com
Seus pedaços
Surge no céu
E se dispersa no
Infinito
               
                Neste ponto a obra estava quase completa, eu apenas não sabia como concluí-la. Foi quando resolvi mostrá-la aos meus alunos, sem finalização mesmo. Já era essa uma experiência que eu estava disposta a fazer há um tempo: levá-los para assistir algo de teatro-dança, mas como é muito complicado mobilizar todos para isso, por que não levar isso a eles? É algo diferente do que estão acostumados a assistir, mas não tão distante do que procuramos desenvolver no âmbito do corpo nas oficinas. Pela minha percepção, a novidade foi muito bem recebida e absorvida. Ao final, sem contar-lhes ainda o título ou de que se tratava a obra, pedi que me relatassem o que viram e como se sentiram. Foi uma alegria muito grande ouvir a palavra quase ser repetida diversas vezes nos relatos e uma experiência muito interessante entrar em contato com tantas interpretações diferentes de alguns pontos. Expor meu trabalho a eles foi importante para aprofundar o meu próprio entendimento de algo feito por mim mesma. Fez-me ver que possuo várias possibilidades de atingir as pessoas por meio daquilo que expresso e quais são algumas dessas possibilidades em potencial. Estabelecer esse contato é muito importante, devo repeti-lo mais vezes num futuro próximo.
                O como concluir o trabalho foi outra dentre as minhas dificuldades. Passei três semanas experimentando diversos meios, mas nenhum me contentava. Por fim, acabei voltando à sugestão do início do processo: os pedidos de desculpa. Eu estava meio insegura quanto à utilização da linguagem falada no trabalho, com medo dele perder força, mas terminá-lo dessa forma deixou-me bastante satisfeita. Nunca deixar de experimentar uma proposta apenas por mera insegurança foi a moral da história nessa última etapa.
                Sem dúvidas, O Quase foi o trabalho que mais me moveu desde quando entrei na Universidade. Eu estava realmente precisando dessa motivação. Uma das palavras-chave de todo esse processo é Recuperação, pois consegui adquirir de novo uma certeza que havia perdido: a certeza de que onde estou é mesmo onde eu deveria estar.




*Olá, Ofélias! Estas são as minhas impressões sobre o solo desenvolvido na disciplina da Vancllea.
A Van tinha sugerido e eu também já queria compartilhá-las com vocês. :)


               

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