Cartas a Ofélia

Cartas a Ofélia
Cartas a Ofélia

segunda-feira, 2 de julho de 2012


Tecendo Cartas 



Nas últimas três semanas, ondas de sentimentos tomaram conta de nossos corpos. Lágrimas que se misturam  entre angústia e felicidade, atriz e personagem , decepção e determinação ameaçam e escorrem.
Livros, rabiscos e textos tomam conta de nossas escrivaninhas, materiais concretos e palpáveis são apresentados e explorados nos ensaios. Concentração e atenção, nunca foram tão importantes e  palavras simples como ação e personagem tão profundas, confusas e claras.
Como atrizes, devemos compor nossos personagens, seus gestos, suas ações, seus movimentos e intenções. Descobrir de onde vem suas motivações. Ação, contra-ação, contração, expansão,  respiração, primeiro e segundo plano. Atuar é uma arte racional e artesanal. Mas no meio desses detalhes como encontrar a emoção que a cena exige? Como manter a cena viva todos os dias? Calma é necessária e ansiedade só atrapalha na busca eterna que permeia essas respostas.  O mergulho é obrigatório. Nada garante que porque hoje deu certo, amanhã também dará. Recriar pode ser muito mais difícil que criar. Uma vitória pode vir carregada de derrotas e uma derrota carregada de vitórias, tudo depende do olhar de nós sobre nós mesmas.
Cartas a Ofélia está nascendo e já começa a ultrapassar nossas expectativas, uma senhorinha envergonhada, uma costureira contadora de histórias, uma faxineira sonhadora, Elaine, Vanessa, Daniela, Vancllea, Maria, Caroline, Helena, Judith, Lucila, Paulina, Maysa, Lorena, Luiza,  a Rainha Gertrudes e claro o o fio condutor do espetáculo, Ofélia, entre tantas outras mulheres que vem nos escrevendo e dividindo seus pensamentos e angústias  tecem a existência dessa obra, narrando história vividas, escritas, criadas e recriadas de mulheres reais e fictícias.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Primeiro dia oficial de ensaio - cartas a ofélia


15 de junho de 2012

Muita expectativa para o dia de hoje, afinal estávamos há um tempo sem um encontro sério com nossa diretora. Um encontro sério e definitivo!
Agora sim, existe um compromisso, com data marcada. Antes existia o esforço, o comprometimento, a vontade, a esperança.
Hoje temos uma equipe formada por profissionais qualificados e especiais... Resultado: só alegria!
Alegria com aquela pitada de ansiedade. 
Temos tempo, mas o tempo voa. Temos espaço, mas não é definitivo. Temos dinheiro, que não é o suficiente. Mas acima de tudo temos um sonho, e a vontade de vê-lo nos palcos é infinita. E no ensaio de hoje: redescubra o seu corpo! Encontre suas possibilidades e entenda que uma atriz NÃO PODE ficar parada nunca.
E não é que voltamos? Corpo suado, entregue, presente, diferente.
Pés fixos ao chão, busca dos movimentos do tronco que depois de tanta insistência reverbera pelo corpo todo.
Equilíbrio. Temos? Encontramos? Perdemos? Distribuímos? Corpos soltos pelo espaço, estimulados ao desequilíbrio, quedas. Desafiados.
E por falar em desafio, conseguimos imaginar a estrutura desse espetáculo? Falamos a mesma língua? Nem sempre, porém as escolhas são admiráveis.
E então começamos a pensar as estruturas... como começa, como termina, o que falta... enquanto isso as lindas imagens nos enchiam os olhos, nos encantavam,
nos tomavam de vontade, nos banhavam a alma, nos afogavam em Ofélia... era um afogamento coletivo, de mãos dadas, uma loucura consciente e sem hora para acabar. Sim, porque o ensaio acaba, mas as imagens ficam, as idéias saltam, o pensamento não cessa... e agora seremos Ofélias, todas elas, todas as possíveis e imagináveis, querendo falar, contar e dividir sua história.... querendo vida, querendo luz... querendo voz até em silêncio como eu agora.
Estrutura sugerida, o ensaio não acaba... o dia é longo... e nessas horas muito acontece! Texto nas mãos, partituras de movimento. Como é a sua Ofélia? Algumas tentativas... mais... mais...
Resultado: felicidade, satisfação, medo e mais ansiedade, como tem que ser... propostas de cenário chegando... e amanhã a saga continua... em busca da personagem!
Obrigada... 

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Os Loucos de Shakespeare




É ... ao mundo moral que pertence a loucura do justo castigo. Ela pune, pelas desordens do espírito, as desordens do coração. Mas ela tem outros poderes ainda: p castigo que inflige se multiplica por si mesmo, à medida que, punido, revela a verdade. A justiça dessa loucura tem isso, ela é verídica. Verídica, porque já o culpado sofre, no vão turbilhão de seus fantasmas, o que será para a eternidade a dor de seu castigo...Verídica também, porque o crime escondido aos olhos de todos vem à luz na noite desse estranho castigo; a loucura , nessas palavras insensatas que a gente não se domina, entrega seu próprio sentido, ela diz, em suas quimeras, sua secreta verdade; seus gritos falam  por sua consciência. Assim, o delírio de Lady Macbeth revela "aos que não deveriam saber" as palavras que por muito tempo não foram murmuradas salvo aos "ouvidos moucos"
Enfim, último tipo de loucura: a da paixão desesperada. O amor desiludido em seu excesso, os amor sobretudo enganado pela fatalidade da morte não tem outra saída senão a demência. Enquanto tinha um objeto, o louco amor era mais amor que loucura; deixado à sua própria sorte prossegue no vazio do delírio. castigo de uma paixão demasiado abandona à sua violência? Sem dúvida, mas essa punição é também uma mitigação; ela espalha sobre a irreparável ausência a piedade das presenças imaginárias; ela reencontra no paradoxo da alegria inocente ou do heroísmo de perseguições insensatas a forma que se apaga. Se conduz à morte, é uma morte onde os que se amam jamais serão separados. É, a última canção de Ofélia...
Em...Shakespeare, a loucura  ocupa sempre um lugar extremo no sentido de que não tem reindulto. Nasa a conduz jamais a verdade nem a razão.  Ela só se abre para o dilaceramento e daí para a morte. A loucura, em seus vãos propósitos, não é vaidade ; o vazio que a preenche é "um mal muito além do meu conhecimento"' como diz o médico a propósito de Lady Macbeth; já é a plenitude da morte:um loucura que não tem necessidade de medico, mas unicamente misericórdia divina. A doce alegria , reencontrada enfim por Ofélia, não se reconcilia com nenhuma felicidade, seu canto insensato  está tão próximo do essencial quanto o "grito de mulher" que anuncia ao longo doa corredores do castelo de Macbeth que "a rainha está morta"

Michel Foucault, Histoire de la Folie, 1961, p.46-47. [Trad. bras.: História da Loucura, São Paulo, Perspectiva, 1978, pp.38-39.]

domingo, 18 de março de 2012

Entre Elaine e Ofélia


Lágrimas derramadas na madrugada quente. Uma mistura louca de rejeição, ciúmes e decepção. A dor da indecisão.  O arrependimento do envolvimento, o abismo que de repente apareceu. Pular ou não pular, eis a questão. Eu não tenho mais como negar, me sinto como Ofélia, odeio ser como ela, mas escolhi ser ela. Escolhi estar aqui, sonhei com esse dia, sinto medo desse momento, não aguento mais me decepcionar.
Ofélia pulou, mas pulou porque não aguentou a decepção, a rejeição, o arrependimento e a falta de escolha. Na sua época a mulher não tinha opção, se não se casasse seria puta ou freira. Ofélia foi criada pelo pai e pelo irmão para ser uma linda noiva, uma esposa exemplar, porém ao se entregar ao amor do príncipe dinamarquês, Ofélia pulou do abismo e jogou fora o que na época era seu maior tesouro . A Virgindade.
Hamlet, ao se decepcionar com a mãe, generalizou sua raiva a todas as mulheres que se aproximassem dele e Ofélia foi sua maior vítima. FRAGILIDADE SEU NOME É MULHER.
Ok..muita coisa mudou de 1600 a 2012. Mas assim como Ofélia, eu fui criada para o casamento, ainda me imagino vestida de branco, linda entrando na igreja de braços dados com meu pai , meu instinto materno pede pela família perfeita, eu peguei o buquê e guardei as pétalas numa caixinha que foi da minha vó, meu nome estava pregado na barra da saia da noiva.  Mas faltou o noivo, que no meio desse ritual todo talvez não seja o centro das atenções mas sem ele o sonho não existe. Durante os últimos 27 anos muita coisa mudou, tem quem diga que o casamento é uma instituição falida, mulheres lindas entram de branco na igreja como se fossem virgens, pessoas juram em falso perante a igreja católica, que já perdeu seu significado perante muitos,  mas nesse dia todos fingem  amar a Deus e ser fiel acima de qualquer coisa. Hipocrisia? Falsidade? Sonho? Engano? Contradição? Amor? Respeito? Tradição?
Que ritual é esse  mascarado pelas falsas intenções e relações a que somos condicionado a ter, por um falso código de conduta moral e social e que persegue as mulheres a anos? Que força é essa que um vestido branco e um buquê exerce sobre nós? Ofélia morre com flores na mão e de vestido branco. Seria isso apenas coincidência?

Assim como Ofélia eu preciso de carinho e amor;
Assim como ela eu sou uma menina dependente do amor do pai e do irmão;
Assim como ela eu já me entreguei e me decepcionei;
Assim como ela eu amo as flores, principalmente as flores amarelas;
Assim como ela eu não quero ser puta nem santa;
Assim como ela eu já não sou mais moça;
Assim como ela eu não me casei com o príncipe dinamarquês;
Assim como ela eu tenho medo, muito medo;
Assim como ela eu me entreguei antes da hora;
Assim como ela eu escrevi e recebi cartas de amor;
Assim como ela eu já enlouqueci com uma paixão;
Assim como ela eu fui mimada e preciso ser bem tratada;
Assim como ela eu não suporto ser desrespeitada;
Assim como ela eu ignorei os conselhos de quem me queria bem;
Assim como ela eu me sinto louca por sentir demais....
...só que ao contrário dela, mesmo querendo, não tenho coragem de pular do abismo , o sonho do casamento está engasgado na minha garganta e eu preciso falar disso, antes que o palco acabe e meu chão desapareça.


" Amanhã é dia de São Valentim
Bem cedo estarei à tua janela,
Donzela que sou, pra ser Valentina.
Ergue-se ele então, sua roupa veste,
Abre-lhe a porta de seu dormitório.
Donzela ela entrou, mas quando saiu
Não mais era como ali tinha entrado
Por Jesus Cristo  e Santa Caridade,
Coitada de mim! Vergonha, meu Deus!
Se isso o moço faz, tendo ocasião,
Merece, por Deus, censura severa.
- Antes - diz ela - de me derrubar,
Tu prometeste comigo casa.
- Pelo luz do sol, tê-lo-ia feito,
Não tivesses tu, vindo pro meu leito"

domingo, 15 de janeiro de 2012

Vestidos y Cartas

Acabamos de selecionar as sete intérpretes  peruanas que participarão  do projeto vestidos y cartas aqui no Peru. Por isso, decidimos criar um blog especial para esse período no qual essas artistas dividirão conosco parte dessa pesquisa.

O endereço do novo blog é: http://vestidosycartas.blogspot.com/

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

O amor na forma de um vestido

" Eu sempre quis ter uma filha, então eu vestia minha filha como se fosse uma princesa. Eu comprava o vestido mais bonito que tinha no shopping porque você era minha princesinha! Eu gostava de te vestir com a roupa mais bonita, com os panos mais nobres. Você era minha boneca, minha princesa. Por isso, eu comprava esses vestidos lindos. Porque era um jeito de expressar todo o meu amor, meu carinho por você, ai eu ia lá e comprava o vestido mais bonito, o vestido para mim tinha um significado de afeto, carinho, de atenção. Se você era a pessoa que eu mais queria no mundo , essa foi a forma que encontrei de demonstrar esse meu amor. Eu guardei os vestidos porque eu sou uma louca igual a Ofélia. 
Eles representam a época mais feliz da minha vida."

Desde que me conheço por gente minha mãe guarda os vestidos que usei nos meus aniversários de 1 a 8 anos como um tesouro em seu guarda roupa. Numa dessas conversas entre mãe e filha no quarto antes de dormir resolvi perguntar para ela: - Mãe porque você gosta tanto desses vestidos?